VAI... VAI MEU TEJO!
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Do alto do castelo
Sopro as nuvens que me toldam o olhar
E aquieto-me encantada
A ver-te passar
Sereno e lânguido
Sereno e manso
Sob um céu de paz azul
Ah, Deus meu...Como és tão belo!
Permaneço assim...calada...
Só te olhando
Vendo como deslizas a tranquilidade
No teu leito
De areias brancas
Entre os campos verdes da fartura
Onde a liberdade cresceu...
Vais de terra em terra
Levando os aromas da lezíria
Levando o som do fandango
E levas contigo, também
As musas e tágides que inspiraram Camões...
Vai... Vai meu Tejo...
Que sorte a minha
De te ver assim a abraçar
As terras fecundas
Deste meu Ribatejo...
As ameias do Castelo
Sussurram-me palavras de outros tempos
Quando o tilintar das espadas
Tinha a pressa dos guerreiros
E os guerreiros apressados
Não se quedavam a ver-te...
Porque o tempo era de luta
E a luta nunca espera...
Que sorte a minha meu Tejo
Que sorte a minha...
Vai... vai meu Tejo !
Por essas terras perdidas
Onde o meu olhar já não chega
MEA
8/04/2020
publicado às 00:50
CAMINHO SEM URGÊNCIA
Encontraste -me um dia no caminho
Onde o tempo corria sem urgência
E nas horas havia odor a pinho
Misturado nas cores em dormência
Bordámos as promessas de carinho
Com as palavras feitas da essência
Recolhida na flor branca do linho
E fizemos do tempo experiência
Pintámos os temores, nãos e medos
Com as cores ocultas nos segredos
E fizemos da vida este recanto
Houve nele alegrias que nasceram
E quando algumas houve que morreram
tivemos que beber do mesmo pranto
MEA
21/03/2021
1º e último verso de Camilo Pessanha no poema CAMINHO II
imagem livre
publicado às 20:08
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publicado às 22:51
HIBERNAÇÃO
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Se de ursos vos falo é por haver motivo
Que hoje mais que nunca lhes vou dar razão
É que como eles também sou ser vivo
Que cansada e farta quer hibernação
Do tempo que passa frio intempestivo
Sem toque de abraços e a sempre agressão
Da chuva caindo de modo abusivo
Escurecendo os dias e o meu coração
E o sol quando vem, sequer aquece a vida
Que vem breve, breve, quase de fugida
Vestido de capa que tapa o fulgor
Quem me dera assim ter essa faculdade
Poder hibernar da chuva e da saudade
E acordar depois com os jardins em flor
MEA
24/02/2021
publicado às 22:45
ENCANTOS MIL
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Tanto que me encanto com coisas banais
No tempo e na vida que tenho e herdei!
Observo e sorrio vendo detalhes tais
Que se antes não vi também não os neguei
Sei de encantos mil até dos animais
De tantas condutas que nunca liguei
E olho... e nos olhos nascem-me arrais
Aonde me insiro e não mais esquecerei
Dos tenros rebentos que furam a terra
Com latente força que neles se encerra
Sei cada centímetro do verde talo
E do que não sei, ainda assim me encanto
E canto o amor a alegria e o espanto
Onde a cada hora o meu olhar embalo
MEA
7/03/2021
publicado às 18:40
FORTALEZA
Quando a mulher nasce ela já nasce flor
Traz suavidade, e perfume de rosa
Que espalha em jardins onde floresce amor
E cresce de encanto, bela e graciosa
Faz-se fortaleza quando enfrenta dor
E segue pla vida gentil e teimosa
Fazendo dos espinhos estrada de valor
Se lhe foi negada a rua mais mimosa
E crescem-lhe picos com que se defende
Se é acometida por quem não entende
Que mulher é flor mas tem querer profundo
Que mulher é força, carinho, amizade
Com odor de rosa e cor de liberdade
Que mulher é mãe que faz crescer o mundo
MEA
8/03/2021
publicado às 20:35
SOU TUDO E NADA
Sei que aqui sou tudo que atesta o vazio
E o vazio me atesta de tudo e de nada
Sem que o nada perca o valor ou o brio
Ou que o tudo seja luz de doce fada
Apenas a chuva neste desafio
É agora o tudo que enche a madrugada
E o nada sou eu, que num sonho vadio,
Escuto-lhe a batida na porta fechada
Já nada não sou, que esta chuva me inunda
Enquanto se afunda na terra profunda
E a noite me bebe os silêncios sofridos
E tudo, não sou, que me faltam olhares
Faltam-me os odores que nestes lugares
Havia nos frutos que estavam escondidos
MEA
5/03/2021
publicado às 21:10
PÉTALA DE ESPANTO
Nesses tantos que são tanto de mim
Por onde tantas vezes me procuro
Há um pouco, que é tanto, de onde vim
E outro tanto que sei, lugar seguro
É lugar onde não encontro o fim
E onde o amanhecer tem cor de futuro
Bordado sobre panos de cetim
Com orlas de subtil, verde maduro
Quando o estio traz força e calidez
E no corpo há império de nudez
Que reclama por gotas de frescura
Talvez seja bem pouco este meu tanto
E eu seja apenas pétala de espanto
Em mim, e por mim, sempre em aventura
MEA
23/02/2021
Imagem de https://img3.stockfresh.com/files/g/gitusik/m/75/8352769_stock-photo-petals-rose.jpg
publicado às 22:55
NO CAIS DO SILÊNCIO
No cais do silêncio há frases caladas Há dores e lágrimas sempre escondidas E há mágoas contidas, palavras pisadas E outras agrestes que escavam feridas
No cais do silêncio perdem-se alvoradas Por ruas amargas, escuras avenidas E há vidas que expiram pelas madrugadas De noites doridas longas e perdidas
No cais do silêncio a vida não conta É espinho é ferrão que causa só afronta Nem o sol aquece nem o amor é prece
E passam os dias, os meses os anos No cais do silêncio só há desenganos ...É noite sem lua! E a vida arrefece!
MEA 10/01/2018
Imagem da net, pesquisa google Pensando em tantas pessoas vitimas de todo o tipo de abuso e violência
publicado às 19:26
MÃO CHEIA
De sonhos sonhados tenho uma mão cheia
E a outra mão cheia de coisa nenhuma
Que há sonhos desfeitos entre os grãos de areia
E outros estão perdidos em mares de espuma
Se os tento encontrar é á luz da candeia
Que vou devagar afastando essa bruma
Que me prende os sonhos sem nó ou correia
E os passos que dou não vão a parte alguma
Só espero encontrá-los em cada fragrância
Que me vem dos dias ainda à distância
Ou na voz que o vento manso me trouxer
Se algum encontrar nas penumbras do medo
Vou ler-lhe palavras dóceis em segredo
Até que ele possa algum dia irromper
MEA
22/02/2021
publicado às 22:33